quarta-feira, 1 de outubro de 2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008

"Nem passar Agosto esperando Setembro..."


Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale sutilmente,
no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu te sentir
como assim - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te!
(Mario Quintana)

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Um salto diario na vida Severina...

A Vida e a Morte - Klimt.
A Meditação sobre o Tiête

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
— Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...

É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oleosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite tão vasta
O peito do rio, que é como se a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O óleo das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oleosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
(Lira Paulistana, Mario de Andrade)
Suicido-me...
E aos que lerem, não morram de susto acreditando ser uma carta de aviso de morte, pois o foco é a Morte Diaria, essa morte que mata a cada minuto de vida morbida!
O foco mesmo é essa necessidade de um suicidio às avessas, de um pulo num abismo de vida!
Vida, vida... eu entendo é nada!
Esse negocio que é grande e que se vai com a facilidade mais simples de ser explicada, pois o Além é sempre explicação... que mané Além? Mas que o quê? Quê?
Doses homeopaticas de café, chocolate, cigarros, cervejas. Doses semanais de anti- inflamatorios de realizaçao profissional. Doses esporadicas de morfina de paixões. Oculos escuros durante a noite, para não enxergar... Mas Morte Diaria é irremediavel...
Um vivo que deseja morrer é o tipo humano mais decidido e corajoso de que ja ouvi falar.
E um morto que deseja viver? Faz o que? Faz o que? Faz-me rir!
Essa Morte que me espreita e que me leva diariamente... que me acerta com cacetadas de realidade cruamente viva, ela vive mais que a propria Vida!
Ei, Além, você que pretensiosamente se coloca como explicação, vê se humildemente me mostra um caminho para um salto diario de Vida nessa Vida Severina!

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

E como se diz o contrario de Solidão?


cueillete - Michel Rauscher


Ser gente é uma coisa estranha! Não sei se é ser gente simplesmente ou se é o "querer ser gente" que nos faz assim sonhadores, verdadeiros arqueologos à procura cuidadosa de vestigios de humanidade, fosseis de verdade, migalhas de companhia...
Que grande invenção foi essa de SER ser humano? Não! Isso é uma engenhoca sem o menor planejamento, e o pior, com a exclusiva utilidade de fazer crescer teias de aranha.
Dentre todos os mecanismos falidos dessa geringonça, acho que aquele que funciona tentando enviar ilusões para a Solidão é o mais problematico de todos. O ser humano é sozinho, e passa a vida inteira ludibriando a Solidão, acreditando que isso é condição para uns pobres coitados...
Não funciona, não funciona... qual o contrario de Solidão? Companhia? Muito pouco! Companhia é muito pouco para a devastadora Solidão... seria bonito assumirmos nossa condição, mas essa consciência plena é muito além do que a maquina do corpo pode aguentar.
E é bem assim que a gente funciona: remando num barco sozinho, se contentando com a beleza das pétalas das flores que caem por perto e sonhando com as que ainda não se aproximaram.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

a arte de bordar

Ponto sem nó - Alice Ruiz

você não dá
ponto sem nó
ponto cruz
ponto cheio
ponto ajour
jura que não
vive sem nós
mas nunca diz
a que veio
mon amour
nosso enredo enrolado
todo emaranhado
tecido por linhas tortas
foi desfiado
a trama é toda sua
personagem principal
quanto a mim
resta o papel vilão
do ponto final

terça-feira, 15 de julho de 2008

Esperança é arvore das grandes...

Uma arvore milenar com tronco enorme, raizes profundissimas e folhas verde-so-de-arvore-assim... é uma imagem esplêndida, que foi sabiamente associada a um dos sentimentos mais plenos que todo ser humano pode ter.

Dizem que todo mundo tem, outros dizem também que o seu fim é a morte de tudo, ou ainda, que quando ele existe tudo é possivel.

Procuro verde em mim... verde de arvore de verdade!

Se houver, numa proxima esquina, ou em outra, ou depois, uma folhinha murcha de final de outono que me faça lembrar que arvores existem, vou fazer um desenho rabiscado de uma usando um lapis HB e um pedaço de papel higiênico!