Não há guarda-chuva contra as madrugadas insones
que pisoteiam as sementes de sol
que desesperaçam as cortinas da manhã seguinte.
Thaís andando, "filmando", recortando e colando o seu mundo numa tela de computador. Em breve na sua tela mais próxima!
domingo, 10 de março de 2013
sábado, 8 de dezembro de 2012
Ecos
Na bem verdade
eu já sentia
os ecos de oco
O oco ecoando
quase em silêncio
não me deixou
te deixar ver
a minha poesia.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Cabum!
Explodir para dentro. Há alguns dias a sensação que paira
pelo corpo com sinais de sedentarismo é um fluxo intenso de pensamentos
aparentemente desconexos: uma profunda bagunça mental que não mostra o seu fio
condutor para uma tentativa de desenlinhamento e organização. Sedentária, mas
também... com tanto calor que faz lá fora! Em seguida pensava nas causas e
consequências do estado atual e só lhe vinha uma palavra à boca: sede! Estava
sedenta, e isso era, definitivamente, causa e consequência do seu sedentarismo,
com explicações bem mais filosóficas do que a simples semelhança gráfica entre
as palavras.
Partiu para o banho, a água lhe acalmaria as ânsias da
cabeça confusa, acreditando com tamanha esperança nos planos que faria em baixo
do chuveiro, que seriam capazes de lhe empurrar para uma atividade física e,
como resultado, para uma atividade mental mais controlada, ou, se isso fosse
pedir muito, que fosse então menos angustiada.
Afrouxar o juízo, porque sentia como se ele fosse um
emaranhado de nós apertados e isso lhe causava uma dorzinha de cabeça chata,
sobretudo no cair das tardes. Talvez o sentimento de “Pronto, finalmente,
acabou o dia!” seguido de “Bosta! Amanhã não tenho nada de extraordinário para
fazer!” lhe desse à alma o direito de proferir um suspiro com ares de quem acha
– com certeza – que sua vida está uma merda.
“Uma cerveja gelada com as boas amigas”, dizia a si mesma
que aquele seria o remédio para matar aquela sede que esfolava de secura a sua
garganta e torrava seus miolos, tamanha desidratação! As boas amigas que queria
estavam todas distantes demais para um gole certeiro e então o pensamento de “merda”
continuava martelando, não saía sequer para dar uma voltinha na esquina.
Talvez a cerveja gelada não fosse ainda o bastante, embora
parecesse um excelente paliativo para aquele momento de tantas dúvidas, se é
que podiam assim ser chamadas, porque parecia tudo nebuloso demais para ser
chamado de dúvida, de pergunta, de questionamento.
Ria de si mesma, achando-se existencialista demais para
pouco caso, existencialista demais para a simplicidade de vida que insistia em
querer costurar no seu corpo. Queria ser leve, não aquela babaquice existencial
de crer que o ser humano existe mais que qualquer outra coisa – um grão de
areia que seja – na natureza. E depois concluía, ainda caçoando de tanto
pensamento, que só de pensar aquilo tudo já era mais existencialista do que sua
vaidade permitiria deixá-la ser.
Não tinha perguntas, não podia, pois, ter respostas. Não
sabia onde estava, mas conhecia um pouco seu mal: sede. Uma sede de uma coisa
sem nome, de um líquido que não sabia onde encontrar. Uma sede de tudo,
infinita sede de paixão. Isso tudo não tem ponto, isso se expande, sempre... “Droga!
Quanto existencialismo barato! Se ao menos pudesse tirar algum proveito dessa
babaquice!”. Queria mesmo era explodir para dentro...
segunda-feira, 17 de setembro de 2012
Entre a cabeça e o coração e os sentidos, as palavras
A terceira condição para conhecer-entender é saber que o
sentimento só sente o que as palavras deixam sentir, mas que a onipotência das
todo-poderosas palavras está sempre a serviço do esforço humano de sentir o que
ainda não foi sentido, de dar a conhecer o desconhecido, de explicar o
inexplicado, de permanentemente ordenar e reordenar o caos. E aí, então,
escutar quem já tentou traduzir em palavras (ou em poesia, que é a mesma coisa)
o mesmo empasse: no caso, Rita Lee, a tua
mais completa tradução.
...
Depois de libertar o coração e dar-lhe tempo para sentir a
impressão, é preciso amar, ou odiar (são o mesmo sentimento, em outra
personificação ou momento histórico).
Quando te encarei
frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o
que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha
feio o que não é espelho
E a mente apavora o
que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era
antes quando não somos mutantes
E foste um difícil
começo, afasto o que não conheço
E que vem de outro
sonho feliz de cidade
Aprende depressa a
chamar-te de realidade
Porque és o avesso do
avesso do avesso do avesso.
Amamos aquilo com que nos identificamos, o outro sonho feliz de cidade de onde
viemos e que construiu nossa percepção para o conceito e o sentimento de
cidade, e odiamos aquilo que se recusa à nossa identificação, a outra cidade
que não reflete essa imagem, exigindo que empreendamos o árduo e doloroso
processo de reconstruir nossa percepção para dar conta de um novo conceito e de
um novo sentimento. De narciso a mutante, de criança a adulto, de ignorante a sábio,
os olhos (a percepção, o entendimento, o sentimento, a sabedoria) percorrem o
caminho que leva do espelho (pequeno
mundo familiar, paroquial, as primeiras pequenas certezas a respeito da vida) à
realidade (a descoberta da complexidade do mundo lá fora e a descoberta da
capacidade de reorganizar o mundo aqui dentro). E se o ódio é o avesso do amor,
e o amor, o avesso do ódio, quem é capaz de resistir a um olhar que não reflete
essa primeira cara infantil, ignorante e narcísica, acaba aprendendo que, pra
dar conta da riqueza e complexidade do mundo, esses dois sentimentos não são
suficientes: é preciso procurar o avesso de cada um desses avessos.
(Paulo Coimbra Guedes)
terça-feira, 31 de julho de 2012
agridoce
todo gosto bem bom começa com agridoce
toma a boca
invade o paladar
sem agredir
sem enjoar
eis a mais ardente novidade
misturada com uma doce lembrança
é tão bom que, em seguida, dá vontade
de tentar um doce, um salgado, um amargo, um azedo...
voltar pro agridoce
e começar tudo de novo.
toma a boca
invade o paladar
sem agredir
sem enjoar
eis a mais ardente novidade
misturada com uma doce lembrança
é tão bom que, em seguida, dá vontade
de tentar um doce, um salgado, um amargo, um azedo...
voltar pro agridoce
e começar tudo de novo.
terça-feira, 10 de julho de 2012
o tempo que dura o tempo...
tempo é a palavra do dia... no sentido que vem, no sentido que vai, no sentido que foi, no sentido que era, no sentido que é, no sentido do que será, no sentido do que passou e passou, do que passou e não passou, do que passou e ficou, do que ficou sem passar, do que sem passar já era, do que era e já foi, do que foi sem ter sido, do sido sem ser, do que virá sem ser, do ser sem vir, do vir sem ser... e de todas as outras combinações possíveis do tempo... e tudo contigo quero viver, tempo!
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